Cesar Teixeira operário da sensibilidade

Foto: Paulo Socha

[Por Emilio Azevedo*] Hoje, no momento em que nos causa perplexidade a despudorada disseminação de ideias fascistas no Brasil, que propagam violência, ódio, preconceito e intolerância, com alguns jovens (tristemente desavisados) elogiando a sanguinária ditadura implantada no Brasil a partir de 1964, nós precisamos recorrer à história, além de reafirmar e divulgar nossos símbolos de resistência democrática.

A arte, de um modo geral, pode ser nossa aliada diante de novas e velhas ameaças. Certamente por isso, a inquieta Claudia Santiago; mulher de livros, cinema, jornalismo e história; me sugeriu que escrevesse para o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) um breve perfil de Cesar Teixeira, autor da canção Oração Latina. Esta música, seu compositor e sua obra são parte de um Brasil bonito e resistente, que nem todos os brasileiros conhecem.

Para cumprir a complexa tarefa, indaguei ao próprio Cesar, por escrito, sobre quem era ele. A resposta foi resumida: “um sujeito que deseja o bem de todos e preserva o hábito saudável da cachaça com camarão seco”. Trata-se de um poeta. E que além de poemas faz músicas, reportagens, peças de teatro, canta, pinta, desenha e às vezes – desejando o bem de todos e a felicidade geral da nação – incomoda alguns que precisam, com certeza, serem incomodados.

Em outras ocasiões, Cesar já se definiu como “um artista de quitanda”. Um fato que testemunhei em 2007 reforça a definição. Naquele ano, ocorria a primeira edição da hoje negligenciada Feira de Livros de São Luís e tive a oportunidade de apresentá-lo ao também poeta Thiago de Mello, que lhe perguntou, quase que de imediato, “qual é a sua editora?”. E Cesar, diante da formalidade da indagação, respondeu: “os botequins de São Luís”. Os dois almoçaram juntos. Mas houve ali um estranhamento, apesar de Cesar admirar aquele interlocutor, a ponto de dar a seu filho o nome de Thiago.

A sensibilidade em ação

Foi em São Luís, a capital do Maranhão, cidade onde ele nasceu em 15 de abril de 1953, que Cesar Teixeira participou, ao longo de mais de quatro décadas, dos processos de criação do Laborarte, da Sociedade Maranhense de Defesa dos Direitos Humanos e do Jornal Vias de Fato. Registrar esses processos ajuda a entender um pouco esse sujeito e seus compromissos com a vida.

O Laborarte surgiu no final de 1972, sendo um movimento com objetivo de integrar música, teatro, artes visuais, dança, literatura. Lá, sob a barra pesada da ditadura de Médici, Cesar Teixeira participou da fundação do grupo, onde socializou suas primeiras experiências para a produção de uma música com uma linguagem inspirada nos ritmos tradicionais do Maranhão.

Na criação do Laborarte, Cesar já era um artista reconhecido na capital maranhense. Três anos antes, em 1969, com pouco mais de 16 anos, ganhou o primeiro lugar em Salão de Pintura realizado na Academia Maranhense de Letras. Com o prêmio ganho, pôde comprar o seu primeiro violão. No ano seguinte, voltou a ganhar com a exibição de seus quadros no salão organizado pelos “imortais”.

Em 1974, Cesar compôs Bandeira de Aço, com objetivo de driblar a censura e protestar contra os dez anos do golpe. Os censores vetaram a musica. Autorizaram o seu lançamento com o nome de bandeja, “Bandeja de Aço”. Em pouco tempo o povo de São Luís tomou conta da situação e até hoje, em 2018, ela canta e dança a bandeira de aço, “com uma vontade louca de ver o dia sair pela boca”, como é dito nos versos dessa canção.

A Sociedade Maranhense de Defesa dos Direitos Humanos (SMDDH) foi criada no início de 1979, no ambiente de crescente oposição a ditadura, tendo a partir da década de 1980, um papel importante no apoio a difícil luta dos camponeses, contra latifundiários grileiros. Cesar Teixeira, que estudou jornalismos na Universidade Federal do Maranhão na década de 1980, esteve atento a essa organização social, contribuindo desde sempre, tornando-se sócio e, entre os anos de 1988 e 2002, sendo seu assessor de comunicação.

O Laborarte e a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos tornaram-se referencias e seguem em atividade, sempre em namoro com o suor e o talento de Cesar. Já o Jornal Vias de Fato, fundado em 2009, é uma publicação alternativa, até hoje marginalizada pelos que tem poder no Maranhão. Foi criada para estimular a liberdade de expressão, num compromisso com as organizações populares. Isso no estado brasileiro marcado por uma das estruturas oligárquicas mais solidas, onde o autoritarismo e a máfia são institucionalizadas.

O jornal teve origem num movimento chamado Vale Protesta, do qual Cesar também fez parte e que juntou teatro de rua e uma intensa panfletagem, sendo fundamental para o aprofundamento do desgaste de Jose Sarney junto à opinião pública nacional. Além de ser um dos fundadores, Cesar foi um dos primeiros editores desse jornal.

Segundo o cientista político Flávio Reis, professor da Universidade Federal do Maranhão, em texto publicado no livro Guerrilhas, o Vias de Fato “foi de encontro ao Maranhão profundo, aquele invisível, mantido cuidadosamente distante pela mídia oligárquica”. Segundo o mesmo Flávio Reis, o alternativo é caracterizado pela “crueza e qualidade” e em “total contraste com o tipo de jornalismo mais freqüente no Maranhão”.

O som do sujeito

Cesar Teixeira tornou-se mais conhecido pela música. Em São Luis, a bem da verdade, sua obra musical é mais popular do que ele próprio. No Carnaval e no São João a audiência é certa. Ao longo de décadas, foi premiado em vários festivais. Ele diz ter composto, até hoje, algo em torno de 130 canções. A quantidade é bem maior. Essas 130 (mais ou menos) são as que ele deu por finalizadas. O poeta é caprichoso. E muita coisa que é laborada nas quitandas e nos butecos não chega a ser finalizada ou registrada.

Essa obra musical transita por samba, samba-enredo, xote, baião, modinha, bumba boi, ladainhas, tambor de mina. Entre suas composições mais conhecidas então Flor do Mal, Boi da Lua, Bandeira de Aço, além de Oração Latina.

As três primeiras ganharam notoriedade por conta do trabalho do produtor cultural Marcus Pereira, que na década de 1970 fez um trabalho diferenciado, ganhando os prêmios Noel Rosa (da crítica paulista) e Estácio de Sá (do museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro). Esse produtor priorizou obras de compositores como Cartola, Canhoto da Paraíba, Elomar, Paulo Vanzolini. Em 1978, ele produziu o disco Bandeira de Aço, interpretado por Papete, onde constam as três musicas de Cesar. Flor do Mal é uma obra prima, dessas que se ajustaria a uma interprete do nível e intensidade de Elis Regina (ouçam e depois me digam!). Bandeira de Aço e, principalmente Boi da Lua, há quarenta anos fazem parte do som ambiente do São João da Ilha de São Luís.

Além do que está na produção de Marcus Pereira, Cesar Teixeira tem outros dois discos, Shopping Brazil (de 2004) e Camapu, lançado este ano. Ele diz que “na verdade, considero tais CDs mais um registro das músicas que produzi, sobretudo nas décadas de 70 e 80 do século passado, sem pretensão comercial ou de fazer sucesso”.

Segundo Cesar, o lançamento dos CDs “é também uma forma encontrada para que os intérpretes, amigos e até mesmo pesquisadores conheçam essas modestas obras, a maioria delas inspiradas nos ritmos tradicionais do nosso estado, trazendo conteúdos poéticos de denúncia”.  Sobre novos discos, ele diz que “ainda tenho muitas composições inéditas desse período e outras atuais que espero gravar aos poucos, sempre que conseguir algum patrocínio ou apoio coerente com as propostas musicais apresentadas”.

Um registro que precisa ser feito, certamente para alegria de muitos, são dos sambas de Cesar Teixeira. Ele é do ramo. Tem inúmeras composições nesse ritmo, que talvez seja o que ele tenha mais identidade. O poeta nasceu na região da Madre Deus, que reúne várias comunidades próximas ao Centro de São Luís, que é um desses berços do samba brasileiro. La tem a famosa Turma do Quinto, os Fuzileiros da Fuzarca e vários e vários outros blocos e organizações carnavalescas. Na Madre Deus ele conviveu com Cristovão Colombo da Silva, mestre de samba e cachaça. E seu pai, Benedito Farias da Silva, conhecido como Bibi, homem de vida regrada, que não bebia e não fumava, foi um conhecido compositor de samba e de marchinhas carnavalescas.

E por fim, Oração Latina, a música que motivou esse perfil, segundo o próprio Cesar, é uma Guarânia, ritmo de origem paraguaia. Foi feita em 1982, para uma peça de teatro de rua, sem maiores pretensões, encenada no Anjo da Guarda, bairro da periferia de São Luís. Dez anos depois, ela voltou a fazer parte de outra peça, escrita por Cesar Teixeira, chamada Preto Fugido, tratando da vida de crianças em situações de rua, encenada na Praia Grande, no Centro de São Luís.

Encerrando esse nosso papo, onde tentei e não sei se conseguir revelar um pouco desse operário da sensibilidade; sugiro que escutem as musicas dele. Elas falam por si. Ouçam! Pois como diz a poesia em Oração Latina, o tempo sombrio e violento “não deixará de abrir a rosa em nosso coração.”

*Emilio Azevedo é do Jornal Vias de Fato (MA), da Agência Tambor e colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC).


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